Entrevista banda Plebe Rude (Philipe Seabra)
- 28 de jul. de 2017
- 10 min de leitura
ZAPPHY – Escutamos e assistimos ao seu novo trabalho, e é impressionante escutar o som da Plebe Rude 20 anos depois e ver que o som ainda é novo e a temática de 20, 25 anos atrás ainda está bem fresca! Foi por isso que vocês optaram por fazer um trocadilho com o nome do primeiro disco (“O concreto já rachou”)?
Philipe Seabra / Plebe Rude - Hmmm. Cuidado com o uso da palavra “fresca”. (risos) Mas sim, sei o que esta querendo dizer. A Plebe ˜não é uma banda antenada nas “novas tendências” para se manter "atualizada" Temos esse som porque somos desse jeito, alias sem jamais ter se preocupado com o que estava “rolando” por ai. Nos primórdios do rock de Brasilia, em 1980 -1981 a cidade foi a nossa principal influência, e através das letras no disco “O Concreto Já Rachou” mostramos isso. Como tocamos na íntegra (pela primeira vez em 15 anos) o repertório desse disco no DVD, nada mais apropriado o chamar de "Rachando Contreto ao vivo. (Também o disco, primeiro disco de oura do "rock de Brasília, esta fazendo 25 anos). Curiosamente alguns meses atrás, a ponte JK de Brasília, novo cartão postal de Brasília, obra faraônica e superfaturada, começou a apresentar problemas estruturais com poucos anos de inauguração. O termo “o concreto ja rachou” foi inspirado na década de oitenta no concreto que “já” estava rachando em Brasília, uma cidade até então nova, mas com problemas estruturais (vindo de obras mal feitas por empreiteiras suspeitas). E trinta anos depois, olha ai…
Gostamos de ver a músicas da banda ainda ressoando por ai. Mas não é meio triste ver que muitas delas, escritas ha mais de 25 anos, continuam atuais? Sim, muita coisa melhorou no Brasil, mas as injustiças e desigualdades sociais permanecem. Pode ser uma gota no oceano, mas pelo menos cuprimos o nosso dever cívico de conscientização. Não gosto de ver quando um espaço consquistado na mídia não é usado de forma responsável.
ZAPPHY – Ficamos sabendo que toda a concepção do show foi montada por vocês! Foi muito interessante assistir ao DVD e ver aquele fundo vazado, mostrando o cenário. Qual foi a intenção da banda ao fugir dos palcos fechados e com cenários luminosos (leds e etc)?
Philipe Seabra / Plebe Rude - Quando decidimos fazer o DVD em 2009, queríamos fugir do lugar comum. É que todo festival, todo especial ao vivo que se vê por aí, os telões estão por todo lado. Assim como o som do rock nacional que esta na “mídia”, o visual atrás dessas bandas também é meio “pasteurizada”. Queríamos algo simples, porém deslumbrante; o por do sol de Brasília. A idéia era também mostrar como Brasília influenciou a banda, com o lago Paranoá com o Congresso Nacional (de costas) no fundo. Afinal, muito da inspiração da Plebe sai das decisões que ocorrem naquele prédio. É uma homenagem a cidade, mas também um atestado do nosso amor e ódio…
Durante a estiagem de Brasilia, que dura meses, simplesmente não chove por meses. Inclusive os níveis de humidade relativa no ar chegam perto dos do sub-sahara africano. O palco então poderia ser completamente vazado sem absolutamente nada atrás e nas laterias, pois não teriamos que nos preocupar com uma chuva, muito menos com uma tempestade que só não poderia atrapalhar a filmagem, mas destruir todo o equipamento, que não era pouco.
Fiz a produção musical do DVD, e foi mixado e masterizado em Nova Iorque. Ao ouvir, ouça alto e você entenderá porque.
ZAPPHY – Como dito anteriormente, é muito interessante ler e escutar o som da Plebe Rude e contemporizar com os dias atuais. Mantidas as proporções, hoje é mais fácil achar temas para se construir músicas de protesto ou na época do surgimento da Plebe era mais fácil?
Philipe Seabra / Plebe Rude - Acho que as temáticas abordadas pela Plebe vem evoluindo, mas foi mais por causa do nossa amadurecimento como pessoas do que qualquer outra coisa. Lembra que fui convidado a entrar na Plebe quando tinha 14 anos. E estávamos no meio do governo Figueredo. Não é que tinham tanques na rua, mas a repressão pairava no ar, muito mais do que em qualquer outra capital brasileira. Até para tocar numa lanchonete tinhamos que mandar músca para a censusra. Não tem como isso não lhe afetar. Essa foi a nossa realidade...
É claro que muita coisa mudou no país, mas muitos problemas ainda existem. Fico triste que nenhum dos artistas na mídia hoje em dia esta abordando isso. Mas faz sentido. Não é comercial. Não vende… Que mal exemplo esta se perpertuando para a nova geração. Imagine as bandas que sairão inspirados nessa falta de inspiração, nessa apatia. E todos perdem com isso…
ZAPPHY – No disco novo, existem algumas músicas novas, mas me parece que este DVD nasceu de um projeto independente de vocês? Agora, dentro do casting da Coqueiro Verde, qual o próximo passo? A Plebe Rude já tem um repertório novo e pronto para poder lançar um CD só de inéditas?
Philipe Seabra / Plebe Rude - O DVD veio de um projeto próprio sim, e foi acolhido pela Coquerio. Ja temos bastante material inédito para o ano que vem, mas calma, deixa a gente curtir o DVD um pouco. A excursão nacional começa em Florianópolis, no dia 22 de julho. Mas ano que vem certamente estaremos preparando um disco de inéditas.
ZAPPHY – As rádios, de forma geral, só tem tocado aquilo que é básico e praticamente, no Brasil, sumiram as rádios que tocam rock. Como a Plebe pensa em fazer para que as músicas sejam tocadas nas principais FMs do país?
Philipe Seabra / Plebe Rude - Não fizemos esse DVD pensando no que seria “palpável” ou “tangível”. Aliás, nunca fizemos nada na carreira da Plebe pensando assim. E estamos aqui até hoje. Acho que dá para perceber que temos um certo romantismo em relação a coerência. Coerência nos atos, na historia, nos pensamentos e consequentemente na música. As coisas são o que são, e nos somos desse jeito mesmo. Quando ouvimos alguns “colegas” nossos sugerirem para a gente facilitar uma música para rádio ou que deveríamos nos “reinventar” é quase rísivel. Ahh, se ao menos o público visse como o rock mainstrem é feito no Brasil… Cada uma…
Brasília, nos forçou a ser assim. De encontrar a nossa própria voz, e mesmo com repressão e censura, de manter essa postura aconteça que acontecer. E não vai ser ser mudança de governo, moeda, tendência nem formato em que música é consumida que vai mudar isso. Mais uma vez, isso se chama coerência. Certamente não é o caminho mais facíl, mas como falei anteriormente, as coisas são o que são. A letra de “Tudo que poderia ser”, a inédita do DVD, resume bem isso:
“De repente tudo passa ser familiar
Sinto que já estive aqui e já sei o que vão falar
Olhe bem na cara de quem diz lhe duvidar
Se julga bem melhor que você
Mas já deve saber
Que não tem tanta coragem”
ZAPPHY – Essencialmente, a Plebe Rude nasceu em um tempo onde música tinha que ter qualidade sonora e conteúdo. Como você vê as bandas de rock hoje? É uma questão de época? Pergunto isso porque o rock perdeu sua essência ou as pessoas é que ficaram, digamos, aéreas a tudo que acontece no entorno?
Philipe Seabra / Plebe Rude - Como foi profetizado nos anos oitenta “a juventude é uma banda numa propaganda de refrigerantes”? É ação/reação: A plateia não esta interessado em atitude. Ela só quer sucesso. E tanto faz de onde vir, pode ser Axé, Sertanejo ou até Pop rock. O que embala os festivais e as feiras agropecurárias é sucesso, não segmento musical. O povo quer cantar junto. Querem mais é beber cerveja e cantar a música que conhecem da rádio.
Então as bandas vão atrás disso, preenchendo essa lacuna de demanda com louvor. E o nível vai caindo… caindo…
Agora fica difícil comparar as bandas de hoje com as dos anos 80. É um pouco injusto. (importante, estou falando de quem esta na mídia; não da cena vibrante e rica independente) Os tempos eram outros, governo, realidade, moeda, índice inflacionária. Era uma época inocente e as músicas que as bandas faziam, como não tinha mercado de música jovem no país, eram puras. Refletiam a realidade de cada uma nas suas proprias cidades e não tinham pretensão alguma, a não ser de servir como válvula de escape para a própria inquietação. Isso fez toda diferença do mundo, pois ninguém sequer sonhava em gravar um disco, muito menos viver de música. Ninguém fazia música “comercial” pensando em atingir um segmento ou moldava o som para facilitar a entrada na radio ou agradar um diretor artístico de gravadora…
E é ainda mais difícil cobrar qualquer politização e embasamento dos artistas novos, artistas esses que cresceram com pouca leitura e muita televisão. Mesmo com inspiração e um mínimo de talento, se você não tiver ferramentas necessárias para canalizar isso através de suas letras, fica complicado fazer isto ressoar com o público, alias, com qualquer pessoa. Isso se chama articulação. ´a inarticulação dessas bandas é de causar espanto. Assunto tem de sobra no Brasil para ser comentado, debatido e contestado, mas são poucos que conseguem traduzir e filtrar isso para a sua própria geração. O problema é que para usar música como arma contra o que esta errado na sua vida e/ou o mundo, você tem que primeiro perceber que tem algo de errado. Isso se chama apatia. Também protesto por protesto também não surte muito efeito, e quando uma banda dessas tenta fazer uma música “séria”, é sempre constrangedor. Por isso nenhum letrista decente saiu do rock brasileiro nos últimos 15 anos. Triste, muito triste...
Mas tem muita coisa rolando na cena independente e isso é bom, apesar que poucos conseguirão alguma notoriedade. A mídia esta fechada para trabalho de qualidade, e isso é uma tragédia. Pode escrever isso, a cultura brasileira sofrerá por décadas por causa disso, e não somente no segmento de música. Poxa, quando era moleque, programas infantis passavam Monteiro Lobato na televisão, leitura era incentivado… O que é que aconteceu? Não tinha atalhos, a norma era estudar e se informar. Pergunta para qualquer criança hoje em dia o que quer ser quando crescer. Pode ter certeza que muitos responderão “ser famoso”. Tipo aquele que viu no Big Brother. E o mal exemplo vai se perpetuando, ao vivo e a cores...
ZAPPHY – Na década de 80 e 90, a pirataria não era algo assim tão escabroso. Existia sim a pirataria, especialmente com cópias de fitas K-7, mas que a indústria musical nunca prestou ou deu muita importância. Porém, hoje, a coisa chegou a patamares onde artistas têm o CD pirateado antes de lançar o original. Como você enxerga este problema? Como a Plebe vai lidar com isso?
Philipe Seabra / Plebe Rude - O gato saiu do saco e não tem mais volta. Para a Plebe, é simplesmente mais um percalço na carreira de 30 anos. As coisas são o que são e é a nova realidade do meio artístico. Mas mesmo com uma temática mais forte, a Plebe conseguiu vender meio milhão de cópias. E isso sem ter escrito jamais uma música de amor, nem usar músicas de outros artistas como muleta. Hoje em dia, artista tem que ser bom em palco, e gosto de pensar que isso nunca foi problema para a Plebe. A forma de se “consumir” música pode ter mudado, mas só isso. Uma banda ainda tem que ser bom. Nada substitui isso.
ZAPPHY – Tenho acompanhado a banda nas mídias sociais e vejo que vocês têm feito alguns bons shows por todo o Brasil. Como tem sido tocar para o público fiel e para aqueles que estão indo conhecer o som da banda (tanto o novo som quanto o antigo)?
Philipe Seabra / Plebe Rude - www.pleberude.com.br esta voltando ao ar e estamos no twitter no /plebeofical. A internet realmente é uma ferramenta incrível. Nossa, quando começamos, distribuíamos panfletos com as letras da banda e com o endereço da nossa sala de ensaio como “contato”. (risos) É, os tempos mudaram... Mas o que tem me preocupado é que tenho visto ênfase demais em divulgação e auto-marketing por parte das bandas independentes. Até entendo já que tem que mais é correr atrás, mas o que não pode acontecer é isso virar prioridade. Nada substitui letras impactantes, música forte, presença de palco e carisma. Mas isso não pode ser forjado. Tem que ser como seeeeeeeeempre foi. Começar a tocar, juntar uma base forte e a partir daí, crescer. Mas tem um problema. Isso demora. A grande pergunta é, e me responda com sinceridade. Nessa era de dispersão total, será que essa geração tem paciência para construir uma carreira sólida?
Porque é só com uma carreira sólida é que se pode durar tanto tempo. O curioso é que Brasil afora, no geral metade da plateia que vão aos nossos shows é de pessoas mais jovens, e muitos cantando tudo. Cantando músicas que foram feitas antes delas nascerem. Como artistas, ficamos felizes ao ver nossas músicas ainda ressoando. Uma foi até tema de novela da Globo ano passado. O que a gente queria mesmo com esse DVD é que as pessoas vissem o que o movimento do rock de Brasília conseguiu, rompendo todas as barreiras possíveis, e do papel da Plebe nele, sem absolutamente apoio algum. Não tinha mercado de rock no começo da década de 80. Não tinha música jovem, feito por jovens, para jovens na rádio. Não tinha operadora de celular investindo, festival independente convidando, Secretarias de Cultura financiando e muito menos programas para artistas novos nas TVs. Nada. Mas olha o que essas bandas conseguiram no Brasil. E isto ressoa até hoje. Queria que lembrassem disso, da força que música pode ter. Do poder da postura, e mais uma vez, da coerência. De não se intimidar quando tudo e todos dizem para você fazer o contrário. Vale a pena sim ter princípios nesse pais.
ZAPPHY – Uma mensagem final para os fãs da banda e para os leitores da revista ZAPPHY!
Philipe Seabra / Plebe Rude - É realmente um prazer falar com pessoas que entendem a mensagem, que tem a mesma postura que nos temos. Não existe coisa que me da mais prazer do que tocar para um público esclarecido.
Mas tem muita coisa acontecendo para quem é fã do rock de Brasília. Esse momento mágico da nossa adolescência está sendo imortalizada no cinema. O cineasta Vladimir de Carvalho, diretor documentarista dos premiados “O Evangelho Segundo Teotônio” e “Conterrâneos Velhos de Guerra” vai lançar um filme agora dia 9 de Julho, no festival de cinema de Paulínia (com a nossa presença) sobre a história do rock de Brasília, "Rock Brasília- Era de Ouro" onde a Plebe aparece, junto com Capital e Legião. É a gente contando a nossa história no cinema. Deve entrar em circuito em setembro.
E em 2012, estreiará o filme “Somos Tão Jovens” de Antônio Carlos da Fontoura, que retrata a vida do Renato Russo e da turma (a famosa “Tchurma”) durante o começo do rock de Brasília. Não só a Plebe aparece em boa parte do filme (com atores jovens fazendo o papel da banda e tocando ao vivo) mas eu e o André X faremos uma aparição especial, como dois dos policiais que deram ordem de prisão as bandas, no show de Patos de Minas de 1982. Foi nesse show, agora história folclórica do rock brasileiro, onde a Plebe Rude e a Legião Urbana (na sua estréia) foram presos por causa das letras “subversivas”. O show esta sendo recriado para o filme com minha colaboração para garantir a fidelidade do cenário e aos acontecimentos. Essa história, e a história do rock de Brasília, tem que contada corretamente, por quem viveu e escreveu as canções que fazem parte de um capítulo importante do rock brasileiro. Vai ser mais legal ainda ver eu e o André X, vestido de PM descendo o cassetete nesse bando de punks insolentes! “Seus bandos de moleques! Pede pra sair!” (risos)


Comentários