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Entrevista Oswaldo Montenegro.

  • 24 de jul. de 2017
  • 4 min de leitura

ZAPPHY – Você viveu e ainda vive a história musical brasileira, inclusive participando dos famosos festivais de música, regionais, nacionais e internacionais. Como você vê a evolução (ou regressão) da sonoridade brasileira? Hoje podemos falar que o mais importante é ter menos conteúdo ou é tudo uma questão de tempo?

Oswaldo Montenegro - A resposta está no tempo. Este em que vivemos é de transição. As mídias antigas passarão o bastão para as novas tecnologias que de tal forma mudarão a indústria cultural que os nossos próprios conceitos terão de ser reavaliados. Seja como for, a diversidade que possui, faz da música brasileira sempre uma coisa interessante. Acho difícil julgar se houve ou não perda de conteúdo no meio da época da mudança. Hoje as certezas e ideologias que pareciam unir os movimentos estéticos e políticos estão transformados numa coisa mais prática, menos idealista, menos utópica. Tento não julgar.


ZAPPHY – Depois de mais de 30 discos lançados, o que ainda te motiva a ir para o estúdio e gravar músicas, se apresentar em shows? Podemos falar que a música é a sua vida?.

Oswaldo Montenegro - O que me motiva é a paixão pela arte e o fato da vida ser uma armadilha terrível para o tédio. A arte não é a minha vida, mas a torna muito mais interessante.


ZAPPHY – O processo de gravar um disco é algo que toma parte da vida e ás vezes até da própria alma do compositor/artista. Foi isso o que aconteceu durante a gravação do disco “Asa de luz”?

Oswaldo Montenegro - Faz muito tempo. Se me lembro bem esse disco aconteceu no meio de um período em que morei com os pescadores e logo depois dele, fiquei nômade um ou dois anos. Era portanto uma época de busca, de procura. Ele reflete isso. Vim ao Rio gravá-lo já doido para ir embora. E fui.


ZAPPHY – Você vira e mexe sempre visita as terras mineiras. Você veio para muito novo (São João Del Rey) e eu sempre escutei/li em suas entrevistas que as serestas moldaram o seu jeito de ser enquanto músico. E hoje? O que aqui em Minas Gerais mais lhe chama atenção em termos de música? Há talentos aqui ainda precisando de serem garimpados?

Oswaldo Montenegro - Sempre há. Minas Gerais é o estado mais musical do Brasil. Atualmente, na Companhia que formei (Cia. Mulungo) um dos mais talentosos é o Renato Luciano, que veio das Minas Gerias com toda a sua carga de sensibilidade e talento.


ZAPPHY – Ate uns 20 anos atrás, eu sempre via uma democracia nas ondas das rádios nacionais. Tínhamos rádios para todos os gostos. Hoje, não só as rádios bem como a própria mídia em geral, fecham as portas para trabalhos, digamos, não tão comerciais. Como você vê isso? Isso não limita a musicalidade brasileira, de uma forma geral, pois o ouvinte só vai conhecer aquilo que as emissoras querem que eles conheçam!

Oswaldo Montenegro - As rádios e TVs, como as conhecemos, são dinossauros enormes ainda, mas já moribundos. Daqui a pouquinho a internet fará com que cada um tenha a sua rádio, sua TV e seu jornal. Isso vai democratizar tudo.


ZAPPHY – Fale um pouco sobre este novo trabalho. Guardada as devidas proporções, em que ele difere do seu primeiro trabalho (“Trilhas”)? A maturidade, tanto pessoal quanto musical, é algo que vai moldando a forma de tocar e cantar, bem como de compor?

Oswaldo Montenegro - O novo trabalho se chama Quebra-Cabeça Elétrico e exatamente como os outros, era o que eu estava a fim de fazer na época. Era o que eu estava a fim de dizer, do jeito que eu quis tocar. Nesse ponto nada mudou. Exerço a liberdade não como se ela fosse um luxo (há quem ache que ela seja). Exerço como premissa básica. Minha arte tem que ser a minha impressão digital. Eu paguei um preço alto pra ser desse jeito.


ZAPPHY – Uma coisa que poucos sabem sobre você, é que você é um dos maiores artistas brasileiros, tanto para montar espetáculos quanto para ser o espetáculo, artista renomado e premiadíssimo, mesmo assim, você um artista que ainda é considerado acessível. O seu jeito de ser e de pensar fazem parte da idéia por detrás da música “À palo seco”?

Oswaldo Montenegro - Sim.


ZAPPHY – Mas como?

Oswaldo Montenegro – Eu me identifico com a ideia do trovador. Não me vejo como um artista distante e sim como um estradeiro que anda no meio do povo e compõe sobre as coisas que viu ali. Não interpreto um personagem no palco e nem visto fantasia.


ZAPPHY – A música brasileira é respeitadíssima fora do Brasil, e as vezes eu vejo que alguns artistas acabam sendo mais respeitados e tendo mais espaço lá fora que aqui dentro do Brasil? Isso não é uma incoerência, a sonoridade brasileira ter mais espaço lá fora que no próprio país?

Oswaldo Montenegro – Lá fora há também o que eles imaginam corresponder ao clichê do Brasil. A música que está mais perto do que eles pensam que a gente é tende a fazer mais sucesso. Mas acho que os brasileiros gostam da música do Brasil e nem sempre a cultivam dentro da ideia de um Brasil simplificado, caricaturado. Nós sabemos que o Brasil é plural.


ZAPPHY – Como você vê a questão da virtualização da música (Myspace, mp3s, downloads)? Ela é a responsável pela pirataria ou a pirataria já se tornou algo cultural? Como você, na condição de compositor vê esta questão? Quem é o maior perdedor nesta guerra?

Oswaldo Montenegro – O maior perdedor são as gravadoras. Começou um novo tempo que abalará e mudará (já mudou) a indústria do disco. A música é eterna.


ZAPPHY – Uma mensagem final aos seus fãs e aos leitores da revista ZAPPHY.

Oswaldo Montenegro - Foi um prazer falar com vocês. E prestem atenção na Cia Mulungo. É uma das coisas mais interessantes que estão pintando por aí. Se quiserem conhecê-la, acessem no youtube.


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